Segunda-feira, 19 de Julho de 2010

POEMA DO DIA

Esta até que é uma rúbrica com alguma piada, mas que andava meio escondida. Hoje, sem me sentir particularmente inspirado, apetece-me deixar qualquer coisinha:

 

Se eu continuasse a olhar para ti

o mundo cessaria em tumultuosa elipse

e então, nada em nós do outro restaria,

como num poema que abre

seus flancos ao vento trovador.

publicado por inframodal às 17:52
link do post | comentar | favorito
Quinta-feira, 10 de Junho de 2010

South Africa

 

desculpem lá o sentimentalismo, mas, sinceramente, gostei!

 

publicado por inframodal às 21:16
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito

Portugal sem começo...

 

 

 

 

 

 

só p'ra chatear, hoje não levam nem com o psicótico nem com o zarolho...

... e porque é 10 de Junho:

 

Génesis


De mim não falo mais :não quero nada.
De Deus não falo:não tem outro abrigo.
Não falarei também do mundo antigo,
pois nasce e morre em cada madrugada.

Nem de existir,que é a vida atraiçoada,
para sentir o tempo andar comigo;
nem de viver,que é liberdade errada,
e foge todo o Amor quando o persigo.

Por mais justiça ...-Ai quantos que eram novos
em vão a esperaram porque nunca a viram!
E a eternidade...Ó transfusão dos povos!

Não há verdade:O mundo não a esconde.
Tudo se vê: só se não sabe aonde.
Mortais ou imortais,todos mentiram.

jorge de sena

publicado por inframodal às 13:58
link do post | comentar | ver comentários (2) | favorito
Terça-feira, 8 de Junho de 2010

Quem é, afinal, o gentleman?

Esquematizar a nossa percepção do mundo, ou de uma dada realidade ou circunstância constitui, em si mesmo, um exercício redutor. Mais castrador se torna quando reduzimos o nosso olhar a uma dualidade perceptiva de bem e de mal, de claro-escuro; há, seguramente, momentos na nossa vida em que somos tentados por este, chamemo-lhe, reducionismo maniqueista e dele não podemos, ou intentamos, fugir.

Emitir opiniões pode ser, em última análise, a ilustração de uma vontade de poder, radicada em princípios mais ou menos flexíveis de observação e compreensão de fenómenos; tal manifesta-se, sobretudo, quando expendemos a nossa posição sobre uma temática que não dominamos na totalidade - "só sei que nada sei", já dizia o sábio -, ou acerca da qual ignoramos os princípios fundantes; a ignorância, episódica ou estrutural, conduz a um acirrar das emoções e tolda o raciocínio, no que este deve ter de "cientificidade" e frieza, fazendo-nos escolher um lado da barricada para pugnar contra o outro, que nos enerva, irrita ou, simplesmente, importuna.

Posto isso, falar-vos-ei hoje de ténis, não do ténis dos smashes ou half-volleys, que para tal não estou rotinado, mas do ténis feito emoção, gosto, se não mesmo, paixão. Assistir aos 15 dias de intensa compita em Rolland-Garros foi, indubitavelmente, um privilégio; o ténis é uma actividade muito rica do ponto de vista plástico e, quando jogado ao mais alto nível, proporciona picos altíssimos de adrenalina; e aqui entra o lado subjectivo e, quiçá, pouco abalizado, de alguém que como eu, praticante compulsivo de desporto (que nunca o ténis, curiosamente), me vejo siderado pela componente atleticista e sacrificial de um performer como poucos, chamado Rafael Nadal. Os poucos puristas da modalidade que conheço tendem a objectar-me o meu desconhecimento do souplesse de Murray ou da classe, inegável acrescente-se, de Federer ( o rei dos cortes, como de costume o apodam). Não obstante, reconheça o facto de não ser um expert no que a ténis diz respeito, possuo a minha sensibilidade, e sou capaz (porque tenho olhinhos) de vislumbrar as características intrínsecas a cada grande atleta ou, no caso presente, a cada tenista. Não me filio em nenhuma corrente Nadaliana, por oposição aos Federistas ou aos pós-Federistas (tipo soderlinguianos, ou coisa que o valha...). Contudo, não abraçando propriamente esta ou aquela causa, há uma de que sou um fervoroso militante, a qual se prende com uma visão global daquilo que deve ser o desporto; não somente o corolário natural de horas e horas de trabalho e dedicação, que aliados a uma predisposição genética de base, edificam campeões, mas aquele je ne sais quoi mais que define os grandes, por oposição aos pequeninos; e nesse particular, posso afirmar, sem correr o risco de ser erroneamente interpretado, que Nadal é enorme (pelo menos, tem-no sido) e Soderling, só para dar um exemplo da modalidade, pequenino: Diante da pressão mediática de ser um dos melhores, senão mesmo o melhor tenista da actualidade, Rafa Nadal tem sabido respeitar os seus oponentes e mantido um discurso respeituoso, o qual só peca, aqui e ali, por excesso de reverência. Quanto a Soderling, só se me oferece dizer que a derrota inapelável sofrida este ano às mãos, pés e corpo inteiro do espanhol, lhe deve ter sabido bem amarga, depois da falta de humildade que patenteou em 2009 ao não reconhecer em Nadal, a classe e a categoria suficientes que justificassem um palmarés tão rico e cheio... 4-6, 2-6 e 4-6 numa final, devem ter bastado, presumo?

Quanto ao, por muitos puristas (cá estão eles, outra vez), considerado um gentleman, tenho alguma dificuldade em encaixar como esse epíteto se coaduna com os achaques de vedeta que o acometem de cada vez que perde um encontro, ou quando o interpelam acerca da notoriedade de Nadal; é curioso, mas nunca vi Nadal questionar a imensa classe e categoria, tenisticamente falando, de Federer, mas já deu para subentender o contrário em algumas, que não tão poucas assim, ocasiões. Quem é, afinal, o gentleman?

publicado por inframodal às 13:56
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
Quinta-feira, 3 de Junho de 2010

hora de fecho

 

Hoje, proponho uma quebra na temática habitual que inspira este blog. Faço-o, não com dor intolerável, mas movido pelo dever humanista de lembrar aqueles que consideramos ou, em certa medida, estimamos.

Num ápice, em apenas dois dias, três desaparecimentos pontuaram o meu espaço mental; desses, dois são de um domínio público, porque publicável, anunciável. O outro reveste um cariz mais pessoal.

Rosa Coutinho, o "almirante sem medo", o celebérrimo "almirante vermelho", figura central da revolução dos cravos, eixo nuclear de um tempo que foi o de todos nós...

João Aguiar, escritor de 66 anos, dono de um imenso rigor estilístico e de sobriedade intelectual que muita falta fará ao "nosso" futuro.

Mais árdua devém a tarefa, porque minada pelo conhecimento pessoal, de relembrar Mira Gosling, caracterizadora em alguns dos trabalhos mais emblemáticos do realizador açoreano José Medeiros, e mulher de um amigo um pouco mais provecto que eu. Deixo-vos, ao menos, pistas para deslindarem quem ela foi...

O fim, neste como nos outros dois casos, já se anunciava, mas queiramos ou não, arrosta sempre aquele amargor que custa a assimilar. Bem-hajam!

publicado por inframodal às 20:33
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
Sábado, 29 de Maio de 2010

Marcha em ruptura (tema proposto)

Originalmente, o homem não olhava para o seu interior a partir dos dados externos. Anterior a todo e qualquer estímulo, sobrevinha o primado da interrogação; o que sou, quem sou, o que faço aqui?... Por conseguinte, a condição humana lavrava numa precária representação de si própria.

A geração espontânea, em si mesma, é uma falácia. Desde períodos remotos que a espécie humana se entretém numa perene busca de respostas para os anseios e os paroxismos da vida. A nossa condição é, por excelência, volitiva, e aspira à cooperação, não enquanto meio puro e duro de sobrevivência, mas como veio comunicacional. Os primeiros homens e mulheres a habitarem o planeta foram, numa fase primeira, movidos pelo instinto e pela intuição, cedendo gradualmente, porém, lugar ao auto-conhecimento e à reprodução abstracta da própria existência; foi nesta etapa, neste vínculo iniciático com uma subjectividade ainda larvar, que se esboçaram os prolegómenos de uma memória colectiva.

Assente no binómio conflitualidade-cooperação, assistiu-se a um apuramento da espécie; o homem tornava-se espectador, quiçá insciente, do seu próprio crescimento. Deste afã auto-consciencial, brotaram os primeiros indícios de uma efectiva superação da natureza.

Muito antes sequer do surgimento da escrita, já a matriz inventiva da condição humana criava um lastro, um continuum intra e inter-grupal, responsável pela transmissão de conhecimentos, de valores e de técnicas, que lhe alargavam o espectro e facultavam o predomínio face à natureza opressiva. Toda esta dinâmica encerrava, desde logo, uma lógica primacial: - Por um lado, a assumpção do fim biológico como uma inexorabilidade, por outro, a transcendência deste próprio fim, da extinção; à noção de descendência, encarada como perpetuação da espécie, acoplou-se a representação simbólica de experiências individuais e grupais. Gerava-se, assim, uma meta-realidade que transpunha as limitações do mundo físico. A morte, interpretada como passagem de testemunho, pressupunha, no seu âmago, este "esticar do tempo", mote de qualquer cultura percepcionável.

Com o advento da escrita codificada, os fenómenos culturais, resgatando uma força arquetípica de grande complexidade, autonomizam-se, definitivamente, face ao meio ambiente circundante. Ao longo dos séculos, a cultura escrita constituiu, a par da tradição oral - pujante, sobretudo, ao nível da cultura dita mais popular - um espelho no qual nos vimos reflectidos e onde eram representadas as perplexidades da(s) nossa(s) existência(s). Nela nos reencontrámos e buscámos abrigo intemporal, « Quanto mais superficial e tumultuosa a vida espiritual europeia se torna, tanto mais pertinente será a necessidade de os poucos poetas se retirarem numa espécie de linguagem secreta. » (Hesse, H; viagem ao país da manhã; 1930-31). Esta é a quintessência da memória colectiva, jamais um recital de amorfas banalidades; ela deve sempre perscrutar mais fundo.

Contudo, nesta modernidade tardia (termo querido a J. Habermas), instalados na poltrona do progresso científico e das miríficas ilusões de modernidade, sentimo-nos órfãos de alguma ingenuidade, daquele espanto visceral que nos catapultava para gestos imensos. E a suprema aporia é aquela que nos convoca a todos, sem excepção, para o espectáculo da nossa própria destruição, para o agudizar da absurda consciência de que amanhã podemos não existir.

Sera que, obnubilados pela demanda da ciência vs tudo o resto, não apoucámos a própria ideia de condição humana. Os derradeiros 150 anos são disso uma imagem q.b para percebermos que alguma coisa vai mal no terceiro reino a contar do sol; e temo que um dia percamos o rasto a um Platão, a um Voltaire ou a um Pessoa, e talvez nesta altura só já nos reste "tocar no botão". Espero, sinceramente, que não...!

 

andré medeiros palmeiro, 27/28 maio 2010

publicado por inframodal às 08:07
link do post | comentar | favorito
Quinta-feira, 6 de Maio de 2010

tema proposto

 

comuna de paris-1871


um possível olhar

a mulher na sociedade contemporânea…

 

Espreitando pelo buraco da fechadura o homem vê a mulher como o outro lado de si mesmo, a face intraduzível de uma realidade partilhada, toldada, porém, pelas diferenças e perplexidades decorrentes do abismo que ainda nos separa na contemporaneidade.

 

A transformação social é evidente e transgeracional, no sentido em que não começou agora, resultando de um longo e doloroso processo que foi, em algumas situações, comum, ie, o homem evoluiu na medida da própria evolução social e da assumpção por parte das mulheres de um papel veramente interventivo. Muitas das conquistas que as jovens de agora tendem a desconsiderar e a tomar como suas, estiveram sujeitas a uma dialéctica de ganhos e de perdas, profundamente desgastante e angustiante. A peleja feminina não foi em si mesma cívica, política ou de habitus, foi um holismo sincrético que se imiscuía no coração da luta e que, deslize a deslize, lá ia conquistando o seu espaço no sentido da progressiva emancipação da mulher enquanto actor social de pleno direito. O homem oscilava entre espectador passivo e observador participante desse mesmo crescendo, sentindo-se, ocasionalmente, incomodado ou até mesmo intimidado com a iminente afirmação feminina, cujo percurso se consolidou umas vezes a reboque de transformações mais vastas, tais como a luta das grandes massas operárias, outras como movimento reivindicativo isolado e, não raras vezes, barbaramente reprimido.

Da grande luta das sufragistas, emergente nas décadas de 10 e 20 do século passado, mas com raízes profundas nos escritos de algumas intelectuais do século XIX, ao papel denodado e temerário assumido por muitas mulheres, jovens e menos jovens, em cenários de guerra ou de catástrofes naturais, à profunda cisma e subversão de costumes nos idos de 60 e 70 e, mais recentemente, a um reequacionar do próprio papel de mãe ao nível da célula familiar, se constrói um mapa de ganhos e conquistas muito colado ao século XX.

Não devemos, contudo, omitir o facto de que as grandes convulsões laborais e económicas do século XIX que desembocaram no aparecimento das primeiras ciências sociais, contribuindo assim para um olhar crítico e rigoroso da realidade e espelhando de modo evidente as assimetrias e os paradoxos da época, favoreceram uma leitura menos providencialista das coisas, estabelecendo novas lutas de contrários onde se inscrevia também, e de modo cada vez mais flagrante a luta das mulheres. Uma nova consciência social ressoava já nos textos de alguns teóricos pré-marxistas e na forma como algumas mulheres protagonizavam episódios de coragem física e cívica em determinadas erupções revolucionárias da época, fosse na revolução de 1848 em que algumas anarquistas, partidárias de Bakunine, ofereceram o peito às balas ou na comuna de Paris de 1871 em que muitas mulheres fizeram mais que simplesmente proteger os seus filhos, criando o lastro necessário para que passassem a ser vistas como actores sociais e não como meras figurantes de um filme em que os homens se disputavam uns aos outros.

É claro que todos estes fenómenos tiveram diferentes velocidades coevas dos próprios contextos e idiossincrasias locais. Não podemos lê-los a uma escala global, devemos situá-los e enquadrá-los dentro do próprio quadro legal e político das diferentes nações, não aflorando aqui os “exotismos” de outras paragens que não o ocidente.

A consubstanciação prática das proclamadas liberdades e garantias foi, nuns casos mais que noutros, morosa e até trágica, se pensarmos, por exemplo, na repressão continuada exercida sobre as massas operárias fabris ou, para ilustrar o tema em apreço, os massacres das primeiras sufragistas nos E.U.A e Inglaterra, onde num só dia, em Bristol, mais de quinze manifestantes afectas a movimentos feministas e libertários foram metralhadas.

 

As jovens dos nossos dias pensam no mundo que se abre à sua frente e descortinam probabilidades, antes nem sonhadas. Não negam o legado das suas antepassadas, mas não lhe dão demasiada importância, isso é história, dizem, com a mesma facilidade com que se infiltram em mundos caracteristicamente masculinos ou enrolam erva numa mortalha para consumo democrático. Subsistem, todavia, numa pós-modernidade quiçá menos atenta e autocrítica, vícios de um passado, que amiudadas vezes tendemos a menosprezar, dada a ininteligibilidade de que se revestem para a nossa civilização; cantões na Suiça e províncias remotas da Áustria onde as mulheres não têm direito de voto, situações (sim, no nosso cantinho) de exploração despudorada de mão-de-obra feminina e de recorrente não aplicação do código de trabalho em face de situações de gravidez, ou noutros aspectos mais corriqueiros, como por exemplo a famosa e fascizante limitação de 15 minutos diários de casa de banho, numa qualquer fábrica de têxteis da Covilhã que só emprega mulheres ou ainda exemplos arrepiantes de tráfico humano, dos quais a mulher continua a ser a principal vítima.

E este é só o lado público, inscrito, enfim… exibível de uma triste realidade. Persistem ainda hoje, na cé(lu)la familiar situações de humilhação, constantes maus-tratos, perseguições, ameaças perpetradas na sua grande maioria por homens, de diferentes faixas etárias ou estratos sociais, sobre as suas mulheres, mulheres estas que, em alguns casos, são profissionais bem sucedidas e reconhecidas socialmente; não nos espantemos, portanto…

150 anos de luta são uma gota no oceano, ou como diria Gramsci, célebre pensador italiano de matriz marxista “… como convencer os possidentes de que não devem possuir assim tanto?...”

A construção de uma sociedade mais justa está pendente de inúmeros factores, mas como erigir um edifício sólido e seguro se os seus pilares não convergirem, se a mulher e o homem não se reencontrarem algures no caminho estabelecendo novas pontes fundadas, não numa uniformidade perceptiva que tudo iguala e nada destrinça, mas num princípio de diferença original, pois o homem e a mulher são diferentes, necessariamente diferentes, embora aspiracionalmente e conceptualmente iguais. É algures por aqui que nos devemos encontrar!

 

andré medeiros palmeiro, 6 maio 2010

publicado por inframodal às 21:58
link do post | comentar | favorito
Terça-feira, 27 de Abril de 2010

Os mass media e a manipulação da opinião pública (tema proposto)

 

As fronteiras da manipulação da opinião pública pelos meios de comunicação social são hoje menos rígidas e perceptíveis.

O facto de, à escala global, vivermos em sociedades tendencialmente abertas, catapulta-nos para esferas inter-relacionais mais vastas e descentralizadas nas quais, pelo menos à superfície, se assegura uma efectiva liberdade de pensamento e o individualismo militante se perfilha como regra d’ouro. Aqui sobrevêm diferentes níveis de interactividade, a sociedade fervilha de novidades e as redes sociais estendem-se ad infinitum acelerando o devir comunicacional, feito de um idiossincrasia voluntarista onde tudo é opinável ou desejável.

Esta abundância, este fluxo ciclópico e não mediado da informação, é um evidente sinal dos tempos em que olhamos para a democracia como facto consumado e inexpugnável.

 

Mas se por um lado existe esta liberdade de expressão corporizada individualmente em cada um de nós, que não pode ser subtraída ou reprimida, pelo menos activamente, por nenhuma autoridade, como enquadrar a asserção inicial de que existe uma opinião pública manipulada pelos media?

Em primeiro lugar, falar de opinião pública é em si mesmo um equívoco, uma mistificação. Como situá-la ou contextualizá-la, quem a regula ou quem a controla…? Vemo-la, isso sim, como barómetro insuficiente e inconsistente, quer no plano temporal quer no plano espacial das relações humanas.

Pese o facto de coexistirmos em sociedades democráticas (cinjo-me nesta reflexão ao mundo dito ocidental) e tendencialmente abertas, os meios de comunicação social mais ou menos influentes não dispõem de uma liberdade plena, se por plena a entendermos como independente e inviolável. Cada caso é um caso, e sem querer generalizar, é sabido que os jornais, televisões ou rádios são detidos por sociedades anónimas, grupos de accionistas coesos e articulados, representando por sua vez, poderosíssimos grupos de interesses agremiados em lobbyes ou, como pedra de toque das democracias ocidentais, os inconfessáveis e, moralmente interditos, interesses políticos…

Por tudo isso, ao falar em liberdade, estamos sempre a falar de algo que é socialmente comprimido e confiado a uma complexidade inter-relacional com diferentes graduações de poder. Não me parece, contudo, satisfatória a noção de manipulação. Considero-a desajustada ao período hodierno, por tudo aquilo que sugere de inconsciência colectiva ou de cerceamento das liberdades tácitas. Revejo-me, ao invés, no conceito de alienação de uma opinião pública, considerados os cambiantes individuais e colectivos da grande massa populacional, cada vez mais assimilada a uma ideia menos vasta e abstracta, de opinião publicada não processada.

 

Não é certamente um acaso histórico ou meramente circunstancial, o facto de todos os grandes organismos, públicos ou privados, empresas de nomeada de sectores vários, prestarem uma particular atenção à comunicação externa, ao vínculo com o exterior, com o consumidor, na ânsia desenfreada de criar uma imagem, uma iconografia própria e inconfundível. Este 4º poder é cada vez mais um poder em si mesmo, altamente profissionalizado, virado para a satisfação de necessidades particulares e rigorosamente delimitadas por interesses.

Verdadeiros exércitos de experts digladiam-se diariamente com o fito de fidelizar uma ideia, de vender um produto, de simular meta-realidades, porventura mais aliciantes e arrojadas, que a realidade de per se; daí a noção de alienação a que há pouco aludi. À sub-informação das sociedades totalitárias, incapazes de lidar com o fluxo comunicacional, sucedem-se as sociedades/comunidades da sobre-informação, incomparavelmente mais complexas e difusas, onde tudo parece aquilo que é e o seu contrário. A informação não filtrada, a comunicação esparsa e multímoda, a fractura identitária de comunidades, aparentemente mais atentas à diferença, mas nem sempre capazes de assegurar uma transição segura e mediada, transportam-nos, não para a terceira vaga de Toffler ou para o mundo em branco de Saramago, mas para uma qualquer pós-modernidade ainda não suficientemente teorizada, onde tudo é publicado e pouco ou nada perscrutado, na esteira da tal grande massa populacional, informe e, porque não dizê-lo, debilmente apetrechada.

 

Num mundo perfeito, talvez Kevin Costner não tivesse de morrer ou Clint Eastwood viver com um peso na consciência para o resto da vida (A perfect world; Clint Eastwood; 1993), as classes políticas seriam capazes de em conjunto dissolver o problema da fome e do agudizar das diferenças sociais, o sector empresarial nortear-se-ia por um estrito código moral e toda a gente seria muito produtiva e capaz no desempenho do seu mister. Mas enquanto este mundo perfeito demora e as democracias se aperfeiçoam e reciclam, nada como uma postura atenta e proactiva, ágil em termos comunitários e subtil no plano relacional.

E já agora, talvez não precisemos de comprar o novo IPAD, pois o mundo não pára por causa disso!

publicado por inframodal às 06:30
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
Domingo, 25 de Abril de 2010

36 anos

Sei que é batota, que o texto é do ano passado mas... perdoem-me a imodéstia, nunca é demais relembrá-lo; ao 25 de Abril, é claro.

 

ABRILÍADA

 

Este sábado comemora-se o 35º aniversário do 25 de Abril de um país envolto em lances de polémica(s), incerteza(s) e indefinições. Porém, o significado de que a data se reveste transcende, simbólica e metaforicamente, a crise que nos perpassa enquanto povo dotado de identidade colectiva. Subsiste, na data em questão, um reservatório de sonho,  daquela utopia cantada por poetas e imortalizada na voz dos cantautores daquela era feita de esperanças ao desvario e em que Revolução se tornou sinónimo de esperança; esperança numa vida melhor, num nivelamento sócio-económico-cultural que não fosse apenas de cátedra, mas matéria viva, pulsante, era do hoje, endemoninhado, Poder Popular, primado da Democracia de base, veramente participativa e interventiva (inventiva?), e não um feudo delegacional como sucede no Portugal hodierno. Falar do 25 de Abril é falar de um legado, que mais que massa concreta ou real, se estatuiu como património intelectual e sentimental o qual, com o infalível decurso geracional tendeu, inexoravelmente, à desvalorização e subsequente ostracismo.

O Portugal de hoje é e não é o Portugal de Abril. É-o, na medida em que dele se pode falar, reconstruir, reinventar, imaginar, até mesmo renegar, mas também o não é, na senda dos vínculos democráticos que nos regem, bem mais flébeis e adulteráveis que aqueles imaginados por Abril, arautos de um tempo de fremente ebulição, comummente denominado Período Revolucionário em Curso. À laia de Vieira da Silva, a Democracia estava efectivamente na Rua, nas ruas, coisa que já à época (e hoje nem se fala) atemorizava muito bom democrata encartado, esticado o espectro de ambos os lados...

É importante pois lembrar Abril e, se possivel, comemorá-lo e nessa revisitação, revivê-lo, mesmo alguém que como eu à época ainda nem era nascido, mas que dele bebi o mel e, quem sabe, também algum fel. Relembrar Abril é também combater tiques revisionistas, repensar Portugal à luz de uma esquerda que se reclame de valores outros que não os em vigor e, sem temores de qualquer espécie, bradar pela premência de novo enquadramento sócio-económico, talvez já fora do círculo hermetizante do(s) n's comunismos de estado existentes, mas por certo, também à revelia da filosofia positivo-liberal que nos conduziu, qual veio triturador, a um poço sem fundo; uma inquestionável acumulação de riqueza associada à galopante degradação dos vínculos laborais, à diabolização da figura do trabalhador (apodado de preguiçoso, improdutivo, rebelde, subversivo, etc, etc...), a um inconsequente e criminoso açambarcamento da matéria produtiva, ao atavismo sócio-cultural das classes não possidentes, à deificação do patrão enquanto extensão do poder paternal e do cura de aldeia, bem... um rosário infindo de, chamemos-lhe, perplexidades (iniquidades seria melhor, não?).

Despejam-nos enquanto trabalhadores, e porque não afirmá-lo, produtores, para o tal poço sem fundo, do qual só lhe reconhecemos esse mesmo fundo, meros peões de um jogo sem regras.

Os valores existem, são universais, transmutáveis e, por vezes, transversais à própria ordem social, o problema é quando esses mesmos valores nos forçam a mexer na dinâmica social opressiva, mas servindo interesses alhures; quando assim acontece, são omitidos e encafuados num local escuro e húmido para não atrapalharem uma qualquer ordem social a qual, obviamente, se crê acima de interesses mundanos e terrenos. Nós, o Povo, dessas manigâncias pouco ou nada lobrigamos , só sentimos, e nada ao de leve, as inevitáveis consequências.

Chega a ser cómico ouvi-los falar e reivindicar porções de democraticidade, invariavelmente maiores que as do parceiro do lado, quando falar de Democracia é falar de potencial auto-organizativo e de gestão dos indivíduos, considerados enquanto célula ou rede, no intuito de suprirem carências e debilidades do tecido social em que estão imbricados (nesse particular, Cuba tem muitíssimo para nos ensinar).

O resto... é o refugo; os herdeiros e desordeiros de uma inepta ordem social, perseguindo os deserdados seja pela cor, raça, credo ou punção. O instinto de sobrevivência e a incapacidade de ver o outro como um igual, fez com que os tecidos sócio-culturais se estiolassem, factor que não é alheio a um danoso recrudescimento de movimentos supremacistas, curiosamente na dita europa do "novo homem europeu", como um ilustre bloguista definia no seu ancilosado conceito, uma réplica das "luzes" em plena Europa do séc.XXI. Pois é, precisamente, em países tais como a França, Itália, Suécia ou Bulgária que os neo-fascistas ocupam as cadeiras do poder, quer o poder central  quer o municipal. Toulouse e Verona são dois marcos que ilustram esta nova europa da tolerância, na qual o meu umbigo será sempre um pouco maior que o teu, mero desvio patológico. Foram beber aos seus heróis que, curiosamente, eram todos eles muito europeus e  muito democratas.

 

Urge reagudizar o debate, inflamá-lo em torno de conceitos tão díspares e vastos quanto DIREITA-ESQUERDA; LIBERALISMO-SOCIALISMO; DEMOCRACIA REPRESENTATIVA-PARTICIPATIVA; PODER POPULAR-SOCIEDADE CIVIL (uma mistificação daqueles que partindo de um estrado mais baixo treparam p'ró palanque, do género ganhar um pouco mais que o parceiro do lado), revitalizar a controvérsia, chamar o 25 de Abril à colacção e dizer-lhe na cara que não morreu e que a sua mensagem é ainda hoje bem actual, talvez mais actual que nunca, estrutural e conjunturalmente falando!



publicado por inframodal às 00:01
link do post | comentar | ver comentários (2) | favorito
Sábado, 24 de Abril de 2010

Somos ouro!!

 

 

Sabendo nós de antemão que o judo não aparece nas parangonas dos media, quero aqui deixar uma referência elogiosa ao judoca João Pina, o qual no recente Campeonato da Europa da modalidade arrecadou o ceptro máximo na categoria de -73kgs.

Assisti ao combate decisivo quase por acaso e fiquei convencido: - somos, efectivamente, muito bons e possuimos aptidões específicas naturais para o judo, tais como a valentia, agilidade, espírito de sacrifício e noção das próprias limitações, que fazem de nós adversários temíveis para qualquer oponente, não obstante, por vezes, o diferencial técnico e de implantação da modalidade.

Os frutos começaram a ser colhidos há já algum tempo, e pese alguns (normais) desaires, granjeou-se um prestígio intra e além fronteiras carreando um crescimento sustentado e já ninguém estranha, antes entranha o conceito de nos colocarem numa bandeja de favoritos na antevisão de qualquer competição. A Telma Monteiro, refiro-a por ser a mais mediática, e demais judocas criaram o lastro suficiente, não apenas para o enriquecimento da modalidade, como para a promoção de heróis, referências, ícones que despoletaram uma crescente popularização da modalidade e a emanciparam, se não economicamente, pelo menos no espírito de quem ama a ideia de um desporto e de um país mais capazes.

Endereço também os meus vivas ao director técnico nacional, Michel Almeida e a todos aqueles que, na sombra do anonimato, trabalharam para a conquista deste título esperando, sinceramente, que este seja apenas mais um e que daqui por uns tempos não tenhamos de realçar tais feitos, tanta a sua frequência e continuidade. Obrigado João Pina. Obrigado ao judo!

publicado por inframodal às 23:38
link do post | comentar | favorito

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Julho 2010

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
13
14
15
16
17

18
20
21
22
23
24

25
26
27
28
29
30
31


.posts recentes

. POEMA DO DIA

. South Africa

. Portugal sem começo...

. Quem é, afinal, o gentlem...

. hora de fecho

. Marcha em ruptura (tema p...

. tema proposto

. Os mass media e a manipul...

. 36 anos

. Somos ouro!!

.arquivos

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

.tags

. todas as tags

blogs SAPO

.subscrever feeds